Dossiê · Condenação · Falha de Registro Criminal

Maníaco do Parque: por que a ficha criminal dele ficou invisível para a polícia

São Paulo, SP · 1998 · Leitura de 8 minutos

Dossiê arquivístico com fichas policiais e mapa do parque

Entre janeiro e julho de 1998, um motoboy abordou mulheres na região do Parque do Estado, zona sul de São Paulo, oferecendo trabalho como modelo. Seis foram assassinadas. Nove sobreviveram.

Francisco de Assis Pereira já tinha passagem pela polícia de Minas Gerais por tentativa de estupro. O registro existia no estado de origem. Nunca havia sido transmitido ao sistema de São Paulo.

Este artigo reconstrói o caso que a imprensa batizou de Maníaco do Parque, a linha do tempo da investigação e a falha de registro criminal que permitiu que um agressor com ficha documentada operasse por meses sem ser identificado.

O que aconteceu no Parque do Estado

Francisco de Assis Pereira, 30 anos, era natural de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e havia morado em Minas Gerais antes de voltar à capital paulista. Trabalhava como motoboy e frequentava a região do Parque do Estado, área de mata atlântica na zona sul da cidade.

Ele abordava mulheres em pontos de ônibus e na região central, oferecendo oportunidades de emprego como modelo. Levava as vítimas de motocicleta até áreas isoladas do parque. Os ataques seguiam um padrão: estrangulamento, violência sexual e abandono do corpo em meio à vegetação.

Os primeiros corpos foram encontrados entre fevereiro e março de 1998. A conexão entre os casos não foi feita de imediato: cada ocorrência foi registrada como caso isolado pela delegacia da região. Só quando o número de corpos na mesma área chegou a quatro é que a Polícia Civil abriu investigação unificada.

"As vítimas foram encontradas em pontos diferentes do mesmo parque, em datas separadas por semanas. A investigação tratou cada uma como caso isolado até que a perícia identificou o padrão." (Relatório do DHPP de São Paulo, agosto de 1998.)

Linha do tempo do caso

  1. Janeiro a julho de 1998Francisco de Assis Pereira ataca pelo menos quinze mulheres na região do Parque do Estado. Seis são assassinadas.
  2. Fevereiro e março de 1998Os primeiros corpos são encontrados na mata do parque. São registrados como casos isolados por delegacias distritais.
  3. Abril de 1998Com quatro corpos localizados na mesma área, o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) assume a investigação e unifica os inquéritos.
  4. Maio de 1998Sobreviventes prestam depoimento. O retrato falado é divulgado. A imprensa batiza o caso como Maníaco do Parque.
  5. Julho de 1998Francisco foge para o Rio Grande do Sul. É localizado e preso em El Dorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre.
  6. Agosto de 1998Após a prisão, a polícia descobre a passagem criminal de Francisco em Minas Gerais por tentativa de estupro. O registro existia, mas nunca havia chegado ao sistema de São Paulo.
  7. 2002Francisco é condenado a mais de 260 anos de reclusão pelo Tribunal do Júri de São Paulo, por seis homicídios qualificados e nove tentativas de homicídio.
  8. HojeFrancisco cumpre pena. O debate sobre integração de bancos de dados criminais no Brasil avançou, mas o cruzamento completo de fichas entre estados ainda não está plenamente operacional.

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As lacunas da investigação

A primeira lacuna é de integração. Em 1998, o Brasil não dispunha de banco de dados criminal unificado entre estados. As fichas ficavam nos arquivos da Polícia Civil de cada unidade federativa. Um criminoso registrado em Minas Gerais não aparecia nos sistemas de São Paulo.

A segunda lacuna é de padrão investigativo. Os quatro primeiros corpos foram registrados em delegacias distritais como ocorrências independentes. A conexão entre os casos foi feita por coincidência geográfica, quando o volume de corpos na mesma área se tornou impossível de ignorar.

A terceira lacuna é de tempo. Entre o primeiro ataque documentado e a prisão de Francisco passaram-se aproximadamente seis meses. Nesse intervalo, seis mulheres foram assassinadas. O atraso se deve à fragmentação da investigação entre delegacias que não compartilhavam informações.

A quarta lacuna é o registro de agressores sexuais. O Brasil, em 1998, não possuía cadastro nacional de agressores sexuais. A discussão foi reativada após o caso, mas a implementação de mecanismos de rastreamento entre estados levou mais de uma década para avançar.

A falha do sistema de registro criminal

O caso do Maníaco do Parque é o caso brasileiro mais citado em discussões sobre integração de bancos de dados criminais. A história registrada nos autos é a de um agressor com ficha documentada que operou por meses em outro estado porque os sistemas de registro não conversavam entre fronteiras estaduais.

A falha é arquitetural. O federalismo brasileiro distribui a segurança pública entre 26 estados e o Distrito Federal, e cada Polícia Civil opera com sistema próprio. O Infoseg, sistema federal de informações de segurança pública, só foi criado em 2004, seis anos depois do caso. O BNMP e o Sinesp vieram depois.

Havia também uma falha de método. O sistema investigativo brasileiro não era treinado, em 1998, para identificar padrões de crimes em série. As delegacias distritais de São Paulo operavam com base em território, e a criação de unidades especializadas em crimes seriais foi, em parte, consequência de casos como este.

O que o dossiê do Maníaco do Parque documenta é um sistema que tinha a informação em um estado, precisava dela em outro e não possuía o mecanismo para fazer a informação atravessar a fronteira estadual. A ficha existia. O caminho entre a ficha e quem precisava dela, não.

Perguntas frequentes

Quem foi o Maníaco do Parque?

Francisco de Assis Pereira, motoboy de 30 anos, natural de São José do Rio Preto (SP). Entre janeiro e julho de 1998, atacou pelo menos quinze mulheres no Parque do Estado, em São Paulo. Seis foram assassinadas e nove sobreviveram.

Qual foi a pena do Maníaco do Parque?

Em 2002, Francisco de Assis Pereira foi condenado pelo Tribunal do Júri de São Paulo a mais de 260 anos de reclusão, por seis homicídios qualificados e nove tentativas de homicídio. Ele cumpre pena até hoje.

Onde o Maníaco do Parque foi preso?

Em julho de 1998, após fugir para o Rio Grande do Sul, Francisco foi localizado e preso em El Dorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre.

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